O lendário crítico de cinema Roger Ebert faleceu em 2013, exatamente quando os filmes de super-heróis consolidavam sua hegemonia em Hollywood. Embora não tenha vivido para testemunhar o eventual platô do gênero, Ebert anteviu esse cenário em sua crítica agridoce de três estrelas para “Os Vingadores” em 2012. Na época, ele pontuou que o filme entregava aos fãs exatamente o que desejavam, mas questionava se aquilo era “exatamente o que eles mereciam”.
No entanto, se essa observação pareceu dura, ela empalidece diante das palavras que ele reservou para outra produção do gênero: a paródia violenta de Matthew Vaughn, “Kick-Ass: Quebrando Tudo”. Lançado em 2010, antes mesmo do Universo Cinematográfico Marvel se firmar, o filme adaptado da obra de Mark Millar e John Romita Jr. aproveitou o impacto cultural da trilogia do Homem-Aranha de Sam Raimi para subverter as expectativas.
Na trama, Dave Lizewski, vivido por Aaron Taylor-Johnson, é um nerd que decide virar super-herói na vida real. Com um traje verde e amarelo comprado online, ele começa a patrulhar Nova York, mas logo se vê envolvido em uma guerra brutal entre um chefe da máfia e dois vigilantes letais: Big Daddy (Nicolas Cage) e a pequena Hit-Girl (Chloë Grace Moretz).
A Polêmica da Violência Infantil
Foi justamente a presença de Hit-Girl, uma criança de 13 anos com peruca roxa que xingava como um gângster de Scorsese e matava sem remorso, que gerou a indignação de Ebert. Em sua crítica de apenas uma estrela, ele classificou o longa como “moralmente repreensível”. É importante notar que Ebert não era um moralista conservador; ele foi o homem que criticou o politicamente correto nos anos 90 e elogiou a sensualidade sinistra da Rainha Borg em “Star Trek”. Contudo, a violência cometida por crianças foi uma linha vermelha que ele não aceitou cruzar.
A repulsa de Ebert ecoava sentimentos que ele já havia expressado sobre a adaptação de 1990 de “O Senhor das Moscas”, onde lamentava que a ficção estivesse se tornando menos chocante que a realidade das ruas. Para ele, “Kick-Ass” tratava a vida humana como alvos de videogame: mate um e marque pontos. Em um contexto onde a violência armada entre jovens é uma realidade trágica, o crítico argumentou que a piada perdia a graça.
Curiosamente, o filme falha onde a HQ original triunfa: na honestidade. Enquanto o filme transforma Dave em um nerd cativante e Big Daddy em um pai tragicamente vingativo, os quadrinhos originais são muito mais cruéis e cínicos. Na obra impressa, Big Daddy não é um ex-policial injustiçado, mas um contador delirante que sequestrou a infância da filha para viver uma fantasia escapista. Ao tentar tornar os personagens mais “palatáveis” e heroicos para o público de cinema, a adaptação acabou diluindo a crítica ácida que a obra original propunha sobre a obsessão por super-heróis.
O Futuro da DC e a Busca por Profundidade
Anos após a morte de Ebert e a polêmica de “Kick-Ass”, o gênero de super-heróis continua buscando novas formas de se reinventar e, talvez, encontrar a profundidade dramática que muitas vezes faltou. Atualmente, James Gunn, co-CEO da DC Studios, parece estar trilhando um caminho que valoriza a essência dos quadrinhos, buscando inspiração direta em arcos narrativos complexos para construir o novo Universo DC (DCU).
Diferente das adaptações que apenas usam a estética dos heróis, Gunn está mergulhando em histórias que exploram a moralidade, o trauma e o horror. Um exemplo claro é a possível adaptação de “Wonder Woman: The Hiketeia”. Escrita por Greg Rucka, essa história coloca a Mulher-Maravilha em rota de colisão com o Batman. Diana, presa a um antigo juramento grego de proteção, deve defender uma jovem que assassinou traficantes sexuais em vingança pela morte da irmã. É um conflito de ideais: a justiça punitiva do Batman contra o dever moral e a compaixão de Diana, oferecendo uma complexidade que elevaria a personagem no cinema.
Além disso, Gunn tem sinalizado interesse em explorar o custo psicológico do heroísmo. O arco “Heróis em Crise” (Heroes in Crisis), embora polêmico entre os fãs por certas escolhas narrativas, oferece uma base sólida para discutir o trauma. A trama gira em torno de um santuário para super-heróis lidarem com o estresse pós-traumático de anos de batalhas incessantes, um tema que humanizaria deuses e vigilantes de uma forma raramente vista nas telonas.
Horror Cósmico e Conflitos Políticos
A ambição do novo DCU também parece apontar para eventos de escala massiva e tons mais sombrios. Rumores indicam que a saga “A Noite Mais Densa” (Blackest Night) pode estar no horizonte, especialmente com a série dos Lanternas Verdes prevista para 2026. A narrativa introduz os Lanternas Negros, heróis e vilões ressuscitados como zumbis energizados, trazendo elementos de horror legítimo para o universo compartilhado. Da mesma forma, “Noites de Trevas: Metal” (Dark Nights: Metal) poderia expandir as fronteiras da realidade ao introduzir o Multiverso das Trevas, conectando o Batman a metais misteriosos e pesadelos de outras dimensões.
Por fim, a tensão política, algo que sempre permeou as melhores histórias do gênero, deve ser central em tramas inspiradas por “Absolute Power”. As produções recentes de Gunn, como a segunda temporada de “Peacemaker” e o novo filme do Superman, já mostram um governo americano desconfiado da comunidade heroica. A presença de personagens como Rick Flag Sr. e as maquinações de Lex Luthor sugerem um cenário onde a linha entre herói e ameaça estatal é tênue.
Seja através da rejeição visceral de Ebert ao cinismo pop de “Kick-Ass” ou da curadoria meticulosa de James Gunn para o futuro da DC, fica claro que as adaptações de quadrinhos são um campo de batalha constante sobre o que essas histórias representam. O desafio continua sendo o mesmo: entregar não apenas o que os fãs desejam, mas, como Ebert diria, o que eles — e o cinema — realmente merecem.